De volta ao barro

De volta ao barro

Já passavam das 17 horas fazia tempo, o sol se prepara para o crepúsculo vespertino – apresentação cotidiana que fazia os céus se renderem em cores. As revoadas de pássaros, cada um conforme sua espécie, cantarolavam seguindo para casa. Nos galhos das árvores era possível ouvir o coral dos pequeninos ansiosos pela mamãe. O mar que horas antes vazava em algum lugar, agora era champanhe derramado em taça de cristal escorrendo por toda extensão da praia. E assim, o dia ia se despedindo sem nenhuma vergonha de ser feliz. A noite – misteriosa e elegante, contava os minutos para cair sobre o céu e exibir suas estrelas e a lua que, ao contrário do sol, atraia olhares, inspirava poetas e brilhava imponente sem machucar quem olhasse para ela – afinal, era de sua natureza. Nessa noite, em especial, o som do vento me lembrava Mozart em String Serenade No.13 “Eine Kleine Nachtmusik”, do famoso comercial dos sabonetes Vinólia na década de 80, com aquelas belas mulheres de Atenas as quais me encantavam por sua beleza e força.

E foi ao som dessa sinfonia mental que ela apareceu, parecia pronta para o amor. Nos movimentos a leveza de quem é livre, no semblante a delicadeza de quem perdoa. Seu sorriso duo revelava a pureza angelical de uma criança e a sensualidade de mulher, suas formas corporais pouco me importavam, a amei desde o primeiro instante, amei a sua alma. Não sei explicar como essas coisas acontecem, parece enredo de comédia romântica americana, mas foi real. Seu cheiro, não seu perfume, se apegou em mim de tal forma que perdia a lucidez ao olhá-la por mais de dois minutos, como era difícil conter-me. Minha imaturidade e afobamento não me deixavam perceber que ela também me amou desde o primeiro olhar. Ficamos horas sentados naquele banquinho de madeira desconfortavelmente aconchegados, admirando a lua, ouvindo o som dos bichos noturnos e planejando nosso próximo encontro que seria na noite seguinte. Aquela noite linda foi testemunha do nosso amor, não havia palavras, nem promessas, muito menos testemunhas, mas tínhamos uma única certeza: era amor de alma, era para sempre.

Fui para casa sem sentir o chão, pela primeira vez eu sabia o que era o amor, quase não consegui dormir; um emaranhado de fios parecia em curto dentro da minha cabeça; lembranças do cheiro, do toque das mãos, do beijo no rosto, do olhar, me faziam ficar acordado contrariando a necessidade do corpo que já se encontrava esgotado depois de um dia duro de trabalho. Perto das quatro horas da manhã senti o sono chegar, já não mais o resistia, me entregava a ele para revigorar as forças, pensando em encontrá-la logo mais à noite – talvez, hoje seja o nosso primeiro beijo.

Como era de se esperar, acordei atrasado, sai às pressas, nem fiz minha primeira refeição, estava tão feliz que nem fome sentia, só pensava nela, queria que o dia colaborasse comigo, se o sol pudesse ir embora mais cedo ficaria devendo esse favor a ele. E parece que ele ajudou, quando me dei conta já estava na hora do almoço, dessa vez, mesmo ainda feliz, a sirene do meu estômago soou, apressei-me para o refeitório, já sentado à mesa, antes mesmo da primeira garfada de comida, pego meu celular e vejo uma mensagem dela: “não dormi a noite toda pensando em você”. Nossa, naquele momento eu era o cara mais feliz do refeitório, tinha a impressão que todos me observavam, e talvez cochichassem uns com os outros: “como ele está feliz”! E estava mesmo, muito feliz, minha alma estava plena e convicta do que eu iria viver com ela, se eu pudesse bateria o garfo no prato e chamava a atenção de todos e anunciava: eu estou amando a moça mais linda da Vila Ferteco – zona rural de Brumadinho, me contive é claro, e voltei minha atenção para a comida, precisava me alimentar, pois ainda não havia comido nada desde a manhã.

Estava sentado na última mesa do refeitório, quando de repente olhei para frente e vi aquela avalanche de lama vindo em minha direção. Tão rápido que quando me dei conta já estava sendo arrastado, já não era mais gente, nem dono de mim, era um objeto qualquer misturado com os rejeitos de minérios, com os estrumes dos bois, com bichos vivos e mortos, galhos de árvores e troncos despedaçados, naquele instante senti no corpo o peso da ganância dos poderosos, minha vida não valia nada naquele VALE de lamas. Fui arrastado por muitos metros, ainda consciente, vendo e ouvindo pedidos de socorros, pais e mães que gritavam por seus filhos, vi sonhos atolados, projetos interrompidos, a morte ia chegando cada vez mais perto.

Lembrei-me do encontro marcado – que não acontecerá, do beijo que não será dado, do sonho de viver uma vida ao lado dela, e de como poderia ter sido feliz. Mas o mais doloroso foi lembrar que no caminho da lama estava a Vila que ela morava, o barro vermelho logo iria cobrir as casas que estavam ali. Não houve sirene. Muitos como eu, serão engolidos de surpresa e arrastados para o curso de um rio qualquer, sem nenhuma chance de se defender. Serão esquecidos rapidamente como em Mariana. Lembro-me disso, pois estava lá também. Fui sobrevivente, perdi alguns amigos e um irmão, e agora, era a minha vez de partir. Sabia disso, sentia o cheiro forte da morte, pensava: não vou porque quero, não vou por decisão divina, vou porque alguém negligenciou a vida humana, construindo nosso lugar de trabalho no caminho da lama e deixou que outros construíssem também. Afinal, quanto VALE a minha vida? Nesse lamaçal da Vale não valíamos nada vivos imaginem agora mortos? E o que VALE mesmo? Claro, o que vale são os dígitos no banco.

A morte se aproxima, já não tenho mais forças para lutar com ela, o dia 25 de janeiro de 2019 será o dia da minha partida. Vou sem saber onde está a minha amada. Minha alma se despede sem ter vivido os sonhos que planejei para ela. Somos de fato invisíveis misturados na lama ou não. Sei que nunca encontrarão meu corpo, a lama vai sedimentar com o sol e eu voltarei ao barro, de onde eu vim.  

Alexandra Patrocínio

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